Pacientes pagam US$ 25 mil para ter cobaias personalizadas com DNA “doente”

Pacientes pagam US$ 25 mil para ter cobaias personalizadas com DNA “doente”
Andrew Pollack Do The New York Times, em Baltimore (EUA)
Megan Sykes, uma médica pesquisadora, tem um camundongo com um sistema imunológico humano -o dela. Ela o chama de “Mini-Eu”.

Há também camundongos contendo uma parte de Michael Feeney, 9, -um tumor canceroso extraído de seus pulmões. Os pesquisadores testaram várias drogas nos camundongos, na esperança de encontrar o tratamento mais adequado para Michael.

No que há de mais avançado em medicina personalizada, animais contendo sua doença, ou parte de sua anatomia, podem servir como sua cobaia personalizada, por assim dizer. Alguns pesquisadores os chamam de avatares, como os personagens virtuais nos filmes e jogos online.

“Os camundongos permitem que drogas sejam testadas para descobrir quais serão eficazes, sem expor o paciente à toxidade”, disse Colin Collins, um professor da Universidade da Colúmbia Britânica.

Experiências com camundongos são feitas há décadas, incluindo o implante de tumores humanos nos animais. Mas as técnicas melhoraram nos últimos anos e o interesse está crescendo. Os Institutos Nacionais de Saúde patrocinaram um workshop sobre modelos animais personalizados neste mês. E apesar dos modelos serem usados principalmente para pesquisa, as empresas estão começando a comercializá-los para uso no desenvolvimento de medicamentos e também para tratamento médico.

Os especialistas alertam que não está provado que o uso de avatares prolongará a vida dos pacientes com câncer. E custa dezenas de milhares de dólares, algo que os planos de saúde não cobrem, criar e testar uma colônia de animais.

“É um ato de fé dizer que se trata de uma forma superior de procedimento”, disse Edward Sausville, um especialista em modelos camundongos de câncer da Universidade de Maryland.

Mas alguns pacientes com câncer, querendo tentar tudo o que for possível, estão recorrendo aos camundongos.

“Isso parece acertado para nós”, disse Fill Feeney, a mãe de Michael, que está lutando contra um tipo de câncer nos ossos chamado sarcoma de Ewing desde 2009, quando tinha 6 anos. “Trata-se do tumor dele crescendo em outro lugar e estamos tratando do modo como ele seria tratado.”

Quando Michael passou por cirurgia em fevereiro para remover um tumor que tinha se espalhado para um pulmão, um mensageiro estava aguardando do lado de fora da sala de cirurgia em Nova York para transportar o tumor até um laboratório daqui, dirigido por uma empresa chamada Champions Oncology.

Quatro horas depois, técnicos cortaram o tumor em cinco pedaços e colocaram cada pedaço sob a pele de um camundongo anestesiado. Dois meses depois, após o crescimento dos tumores, eles foram removidos, cortados em pedaços e cada pedaço implantado em outro camundongo. Um mês depois, havia modelos camundongos suficientes para o início dos testes.

Os Feeneys, que vivem em Ridgewood, Nova Jersey, pagaram US$ 25.500 pela criação dos avatares e pelo teste de quatro drogas diferentes ou combinações de drogas.

Os resultados vieram em julho. Uma combinação de quatro drogas –gemcitabina, docetaxel, Avastin e Afinitor– foi “notavelmente eficaz” na redução do tumor nos camundongos, disse o oncologista de Michael, o dr. Leonard H. Wexler, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. Wexler disse que a combinação não era algo que os oncologistas normalmente escolheriam.

Michael ainda não experimentou a combinação por estar participando de um teste clínico de uma droga experimental. Mas se aquela droga não funcionar, disse sua mãe, “nós temos uma boa alternativa no bolso”.

Câncer não é a única área onde modelos animais podem ser úteis.

Sykes, uma professora da Universidade de Colúmbia, lidera a equipe de lá e do Massachusetts General Hospital que reproduziu o sistema imunológico de um indivíduo em camundongos, usando uma amostra de medula óssea do quadril daquela pessoa. A meta imediata é estudar como o diabete tipo 1, uma doença autoimune, se desenvolve. Mas no futuro, ela disse, esse “camundongo imune personalizado” poderia produzir células imunes que poderiam ser transplantadas para o paciente para ajudar a combater a doença.

Na Universidade de Washington, em Saint Louis, o dr. Jeffrey Gordon transplantou uma coleção de bactérias do intestino de uma pessoa para camundongos. Os camundongos “humanizados” poderiam ser usados para estudar, por exemplo, como uma mudança na dieta poderia influenciar a saúde da pessoa.

No câncer, as drogas que funcionam nos camundongos nem sempre funcionam nas pessoas. Mas alguns estudos sugerem que os tumores recém-implantados dos pacientes lembram mais a doença humana do que aqueles criados pela técnica comum de implante de células de tumor que foram cultivadas em laboratório.

“É o mais próximo que podemos chegar da coisa real”, disse Alana Welm, uma pesquisadora de câncer de mama da Universidade de Utah.

Na Clínica Mayo, avatares são usados para “imortalizar” os tumores de pacientes em um teste clínico. O Laboratório Jackson em Sacramento, Califórnia, está desenvolvendo uma grande coleção de modelos animais personalizados representando os vários tipos de câncer para uso em estudos. Empresas como a Oncotest, com sede na Alemanha, e a StemMed, em Houston, estão ajudando as companhias farmacêuticas a realizarem testes clínicos em camundongos substitutos de pacientes.

Os pesquisadores da Bayer Schering Pharma, por exemplo, testaram uma droga experimental em camundongos substitutos de 22 pessoas com câncer de pulmão. Comparando os 14 camundongos nos quais a droga funcionou com os oito em que não, eles descobriram como melhorar a eficácia da droga, segundo um artigo na “Clinical Cancer Research”.

Mesmo assim, os modelos não são substitutos perfeitos. Um tumor implantado sob a pele de um camundongo pode não se comportar da mesma forma que em uma mama, pulmão ou outro órgão humano do qual foi extraído. Diferente das pessoas, os camundongos são criados para ter um sistema imunológico deficiente, para que não rejeitem o tumor humano.

Também há problemas práticos. Às vezes, os tumores dos pacientes não crescem nos camundongos, e leva pelo menos quatro meses para a criação de camundongos suficientes para testar um número razoável de drogas. O dr. Harvey Pass, um cirurgião de tórax da Universidade de Nova York, disse que quatro dos oito pacientes que ele encaminhou para a Champions morreram antes que obtivessem algum resultado dos camundongos.

O dr. Ronnie Morris, o presidente da Champions, disse que a empresa atendeu cerca de 160 pacientes até o momento e testou drogas em camundongos para 60 deles. Os outros pacientes ou morreram muito cedo ou o tumor não cresceu nos camundongos, ou os pacientes são recentes demais para terem chegado ao estágio de teste de drogas.

A Champions, iniciada por dois oncologistas proeminentes da Johns Hopkins, publicou um artigo no ano passado relatando sobre 14 pacientes. Os testes com camundongos encontraram uma droga ou combinação de drogas que conseguiu reduzir os tumores em 12 deles.

Mas a redução do tumor nem sempre significa vida mais longa e os céticos dizem que testes aleatórios são necessários para provar que os pacientes usando avatares se sairão melhor do que o contrário.

Recentemente em uma sala do laboratório da Champions, David Vasquez, um cientista, pegou um camundongo anestesiado, fez um pequeno corte em suas costas com um bisturi, inseriu sob a pele um pedaço minúsculo de tumor de uma placa de petri próxima, então deu pontos no camundongo. O processo levou cerca de cinco minutos.

Outra sala está cheia de gaiolas de camundongos nus, assim chamados porque a anormalidade genética que os torna imunodeficientes também os deixa sem pelos. Tumores imensos brotam do lado esquerdo de alguns dos camundongos. Mas se uma droga está funcionando, a protuberância mal chega a ser visível. Os camundongos são sacrificados se o tumor é removido para transplante em mais camundongos ou quando causa sofrimento excessivo.

Alguns especialistas dizem que testar um tumor em busca de mutações genéticas é um modo bem mais prático de determinar que droga poderia funcionar melhor. Mas essa técnica, ao menos por ora, nem sempre produz um resultado útil. Nir Toib, um cineasta israelense com câncer de pulmão, disse que os tratamentos sugeridos por uma análise genética de seu tumor não funcionaram, mas que a combinação de duas drogas sugeridas por um teste com avatar funcionou.

“Eu tinha 10 tumores no meu rim direito”, disse Toib. “Todos eles desapareceram.”

Apesar de Toib brincar que ele “clonou” a si mesmo nos camundongos, nem ele e nem a maioria dos demais pacientes sente qualquer ligação emocional com seus camundongos.

“Você os vê apenas como uma ferramenta para se salvar”, disse um homem de 60 anos de Nova Jersey com câncer de pulmão. “Do meu ponto de vista, quanto mais eles morrem, melhor para mim.”

Feeney disse ter más lembranças dos camundongos que infestaram seu apartamento no Brooklyn.

E ela disse que Michael “ficou um pouco incomodado ao saber que daríamos câncer aos camundongos e que os mataríamos”.

Mas se Michael for salvo por um tratamento resultante dos testes em seus avatares, ela disse, “eu amarei esses camundongos para sempre”.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato
UOL

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