Presidente da Câmara é braço-direito de Paes e emprega aliados

Entre seus 33 funcionários, estão sua irmã, sua ex-nora, além de dois fornecedores de serviços e dois doadores de recursos para a sua última campanha

NATANAEL DAMASCENO (EMAIL · FACEBOOK · TWITTER)

O presidente da Casa, Jorge Felippe: o vereador emprega em seu gabinete sua irmã e aliados que fizeram doações para a campanha de 2012 Ana Branco / Agência O Globo
RIO – De cabelos grisalhos e aparência simpática, o vereador Jorge Miguel Felippe (PMDB), de 62 anos, passaria despercebido na multidão. Avesso à ribalta, o presidente do Legislativo carioca é discreto. Por isso, poucos colegas falam dele abertamente. Depois de 34 anos de carreira política e seis mandatos como vereador, tornou-se o braço-forte do Executivo na Câmara, zelando para que os projetos do prefeito Eduardo Paes passem sem apertos pela Casa. Mas, graças à Lei de Acesso à Informação, implementada no ano passado na primeira gestão do próprio Felippe como presidente, é possível descobrir em seu gabinete um lado ainda menos conhecido do vereador: entre seus 33 funcionários, estão sua irmã, Samira Tuffy Felippe; sua ex-nora, Carla Celestino Costa; além de dois fornecedores de serviços e dois doadores de recursos para a sua última campanha.

Presidente da Câmara pelo terceiro biênio consecutivo, Felippe é um homem pragmático. Desde 1979, quando ingressou na Casa como primeiro suplente, aos 28 anos, pelo antigo MDB, passou por outras três legendas (PDT, PSDB e PFL), antes de voltar ao PMDB, integrando a oposição por dois mandatos e a base governista por outros quatro. Com trabalhos sociais, consolidou sua base de votos na Zona Oeste área das maiores zonas eleitorais. Na última eleição, recebeu 37.520 votos.

Nascido e criado em Bangu, ele construiu ali sua carreira política. Seu primeiro slogan de campanha foi: É necessário que se diga que os subúrbios também fazem parte desta Cidade Maravilhosa. Bacharel em direito, professor de português e história, foi presidente da associação comercial do bairro e, mesmo quando não foi eleito vereador, em 2000, graças à sua influência na região, foi nomeado subprefeito pelo então prefeito Cesar Maia.

Prometi um cargo a quem tivesse dez mil votos. Ele teve mais de nove mil. Nunca me virou as costas, mesmo nos momentos mais difíceis diz Cesar, hoje vereador de oposição.

Apesar da longa carreira como vereador, Felippe tem uma produção pouco expressiva: aprovou 63 leis, boa parte delas dividindo autoria com outros colegas. Dessas, 22 criaram datas comemorativas ou nomes de ruas. A primeira, em 1979, foi para mudar o nome de uma praça, em Padre Miguel, de Caixa D´Água para Deputado Waldemar Vianna de Carvalho. O político foi um dos fundadores da Mocidade Independente de Padre Miguel. Na lista das leis de Felippe, havia, principalmente no passado, muitas proposições voltadas para os taxistas, como a de 1982, que aboliu as cores de seus uniformes. Na última legislatura, um de seus projetos criou metas para turnos estendidos na rede municipal de ensino.

Além da criação de leis, o vereador tem o papel de articulador político e provedor de desenvolvimento para sua a região de origem. Jorge tem uma longa tradição nesse campo, fazendo o equilíbrio entre a prefeitura e a Câmara, levando benefícios à Zona Oeste disse o sociólogo e cientista político Paulo Baia.

Como vereador, Felippe recebe um salário de R$ 15 mil e declarou na última eleição um patrimônio de R$ 387,2 mil, mas não tem casa própria. No site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o imóvel que aparece vale R$ 180 mil e é um prédio de três andares em Bangu. Lá, dizem moradores da região, é onde funcionava, até a penúltima eleição, um centro social.

O prédio, segundo a Secretaria municipal de Urbanismo, consta como uma edificação em construção, sem habite-se. O vereador, que estaria morando num apartamento alugado na Barra, é pouco visto nos arredores. Nas paredes, há dezenas de pichações. Na entrada, atrás de uma grade enferrujada, uma placa indica o caminho onde deveriam ser feitas inscrições para cursos. Agora, um galpão do lado do edifício é o local onde são oferecidas aulas como dança, ginástica e capoeira. Felippe afirma que cede o galpão à comunidade para atividades e eventos. Mas não é o que dizem os vizinhos: um deles afirma que as atividades são capitaneadas por correligionários do vereador.

Casa da mãe foi base de campanha

O presidente da Câmara não quis receber O GLOBO e sequer falar pelo telefone. Preferiu enviar uma nota oficial na qual afirma que o prédio foi fechado depois que o TRE se declarou contrário ao funcionamento desse tipo de atividade no local. Ele afirmou ainda que a construção está em processo de registro de reconhecimento de propriedade e será regularizada posteriormente.

E é perto do prédio, a cerca de 200 metros, que está outra base importante para a carreira de Felippe: a casa de sua mãe, Noêmia, que também foi usada como local de reuniões na última campanha. Uma das maiores incentivadoras do filho, graças à idade avançada ela já não é tão vista fora da residência quanto em outros tempos.

Funcionária da Fundação Leão XIII, do governo estadual, ela consta no site do órgão como a chefe do Centro Social Pedro I, em Realengo. No entanto, funcionários dizem que, por ser idosa, ela praticamente não aparece por lá. De acordo com a assessoria da Leão XIII, Noêmia trabalha no local, mas estaria de licença por ter contraído dengue. Na última segunda-feira, Noêmia não recebeu O GLOBO, alegando, através de uma empregada, que estava descansando. À tarde, Wanderley Dias dos Santos, auxiliar de gabinete de Jorge Felippe, esteve na casa dela. Segundo o vereador, o auxiliar cumpria tarefas relacionadas ao exercício do mandato.

Além da mãe na Leão XIII, o presidente da Câmara ganhou nos últimos tempos uma relação bem próxima com outra fundação, só que esta da prefeitura: a Rio Zoo. Na presidência, está há mais de dois anos o seu irmão, Sérgio Luiz Felippe. E o curioso: Monica Valéria Blum Rocha, presidente do órgão em 2010, agora é funcionária do seu gabinete, no cargo de consultora, com salário de R$ 8.692. Felippe, por sua vez, afirma que não exerce influência na Rio Zoo. Ele diz que a escolha de seu irmão se deu por sua experiência administrativa em órgãos da administração estadual e municipal.

O gabinete de Felippe, aliás, merece um capítulo à parte. Ele tem a seu serviço a irmã Samira Tuffy Felippe. Outra que está por lá é Carla Celestino Costa, sua ex-nora, com vencimentos de R$ 5.524. Já o assessor-chefe é um ex-vereador, que não conseguiu se reeleger: Rogério Bittar, ganhando R$ 13.736. Daniele Castro Lomba e Carlos Darvin dos Santos Braga, auxiliar e oficial de gabinete, foram doadores de campanha, com valores de R$ 10 mil. Já Neuzice Sousa Santos e Leonardo Soares Barbosa, que trabalharam com ele na campanha, ganharam cargos com salários de R$ 5.524 cada.

O vereador diz não ver problemas em trabalhar com a equipe. Não há impedimento legal, diz ele na nota. Sobre a irmã, afirma que Samira é servidora estatutária da Câmara e (…) não ocupa cargo comissionado. Sobre Neuzice e Leonardo, diz que os dois foram nomeados após concluírem a prestação de serviços relativos à campanha eleitoral.

Agora, Felippe é tido como um forte candidato a um dos cargos no Tribunal de Contas do Município, com salário de R$ 25,3 mil, rumo que já tomou um ex-presidente da Casa, Ivan Moreira. A partir do ano que vem, cinco dos sete conselheiros se aposentam. Ele não fala sobre o futuro: As próximas três vagas são de livre escolha do prefeito.

Loja de Bijuterias faz a limpeza do Zoo

Dirigida por Sérgio Luiz Felippe, irmão do presidente da Câmara, a Fundação Rio Zoo tem em vigor um contrato para lá de exótico para limpeza e conservação do Zoológico do Rio. Contemplada em junho do ano passado com R$ 654 mil, através de dispensa de licitação, por seis meses de serviços, a Comando Alfa Materiais Acessórios Equipamentos e Serviços venceu, em novembro de 2012, um pregão para mais um ano, com pagamento previsto de R$ 1,29 milhão. Nada de mais, não fosse um detalhe: a sede da empresa é uma loja de bijuterias localizada na Rua do Catete.

Uma consulta à Receita Federal torna a contratação um mistério ainda maior. Fundada em 29 de julho de 2009, a empresa tem como atividade principal o comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios. E, entre as atividades secundárias, não consta nenhuma de conservação e limpeza: há comércio varejista de embarcações e outros veículos recreativos; construção de edifícios; outras atividades de ensino não especificadas anteriormente; atividades de estética e outros serviços de cuidados com a beleza; e, por fim, cabeleireiros.

De acordo com o site Rio Transparente, da prefeitura, entre os contratos assinados pela Fundação Rio Zoo em 2012 e ainda em vigor, o da Comando Alfa só perde para o da Dinâmica Patrimonial, responsável pelo serviço de segurança, que tem valores previstos de R$ 1,689 milhão.

Sócio da Comando Alfa, Ianco Seljan afirmou que o estatuto social prevê uma série de atividades, inclusive a prestação de serviços de limpeza. Já a Fundação Rio Zoo afirmou que contratou a empresa para substituir emergencialmente a Locanty Soluções, que teve os contratos com a prefeitura suspensos, acusada de oferecer propina para obter benefícios em licitações. Disse ainda que o segundo contrato, realizado por pregão, também foi assinado depois de um processo licitatório. A fundação afirmou ainda que os contratos foram analisados pelos órgãos de controle do município.

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